Detenta é estuprada quatro vezes por investigador da Polícia Civil em delegacia de Sorriso (MT); homem teria ejaculado no corpo da vítima, revelam depoimentos e laudos
Em um dos episódios mais perturbadores envolvendo servidores públicos no Brasil recente, uma mulher detida sob custódia do Estado em Mato Grosso relatou ter sido abusada sexualmente quatro vezes por um investigador da Polícia Civil dentro da própria delegacia em Sorriso, município a cerca de 420 quilômetros de Cuiabá, capital do estado. A vítima, cuja identidade está preservada, descreveu em detalhes à polícia a sequência de violência, intimidação e ameaça que, segundo ela, se prolongou em menos de 24 horas entre os dias 9 e 10 de dezembro de 2025 — culminando na prisão do policial identificado como Manoel Batista da Silva, de 52 anos.
O caso ganhou ampla repercussão nacional após a coluna de Mirelle Pinheiro no portal Metrópoles revelar com exclusividade o teor do depoimento e o andamento das investigações que mostram, segundo a vítima, um padrão brutal de agressão.
De acordo com o relato prestado pela mulher, ela havia sido detida no dia 8 de dezembro de 2025, em cumprimento a um decreto de prisão temporária, e levada à Delegacia de Polícia Civil de Sorriso. No dia seguinte, após audiência de custódia, a detenta afirma ter sido retirada de sua cela por Manoel, levado a uma sala vazia na delegacia e estuprado sob grave ameaça. Após horas, conforme sua narrativa, o investigador teria repetido o abuso em um segundo episódio, utilizando a mesma dinâmica de isolamento, violência e intimidação.
O que mais chocou os investigadores foi o terceiro estupro, ocorrido já na madrugada de 10 de dezembro, quando a mulher relatou que o policial não apenas a violentou novamente, como ejaculou em seu corpo e proferiu ameaças de morte à sua filha caso ela tentasse resistir ou denunciar os crimes. Dominada pelo medo, a vítima teria permanecido em silêncio. Ainda na manhã daquele mesmo dia, o mesmo investigador voltou a abordá-la para um quarto episódio de violência sexual, sempre em locais isolados da delegacia.
Somente após ser transferida para um presídio feminino no dia 10 de dezembro e, dias depois, colocada em liberdade pela revogação da prisão temporária, a mulher se sentiu segura para procurar seu advogado. Na noite de 12 de dezembro, já em liberdade, ela relatou pela primeira vez os abusos sofridos enquanto estava sob custódia do Estado. A orientação do defensor foi clara: evitar higiene corporal para preservar vestígios e formalizar imediatamente a denúncia junto ao Ministério Público.
Exames periciais complementares realizados pela perícia técnica confirmaram a presença de material espermático no corpo da vítima, reforçando a gravidade das acusações. Posteriormente, a equipe de investigação realizou confronto de DNA entre o material coletado da mulher e o de todos os policiais que estavam de plantão no dia dos fatos — resultado que indicou compatibilidade genética com o material de Manoel Batista da Silva. Essa evidência foi fundamental para a representação da Polícia Civil pela prisão preventiva do investigador, autorizada pela Justiça, e a consequente ordem de busca e apreensão cumprida na casa do suspeito, no bairro Jardim Aurora.
Pertences funcionais do policial — incluindo arma de fogo, munições e algemas — foram recolhidos durante a operação. Manoel foi encaminhado à unidade policial e permanece à disposição da Justiça, onde deverá passar por audiência de custódia. A Corregedoria-Geral da Polícia Civil acompanha o caso e afirmou em nota que não tolera desvios de conduta e que crimes cometidos por servidores serão apurados com rigor.
O caso provocou indignação e debate sobre a responsabilidade do Estado em zelar pela integridade física e moral de pessoas sob sua custódia, especialmente mulheres em situação de vulnerabilidade. Autoridades apontam que a exposição brutal de um crime tão grave por um membro da corporação requer não apenas punição exemplar, mas também uma reflexão profunda sobre mecanismos de proteção, fiscalização interna das instituições policiais e garantias de direitos humanos.