Insistência na aliança provoca rachadura histórica no partido de Bolsonaro; gestores das principais cidades aderem ao projeto de continuidade do grupo de Mauro Mendes, enquanto até a campanha de José Medeiros segue distante do candidato do PL ao Governo
Abilio Brunini, prefeito de Cuiabá; Flávia Moretti, prefeita de Várzea Grande; Cláudio Ferreira, prefeito de Rondonópolis; e Sérgio Machnic, prefeito de Primavera do Leste, todos eleitos pelo partido de Jair Bolsonaro, manifestaram apoio explícito a Pivetta na corrida pelo Palácio Paiaguás.
Eles não são os únicos prefeitos do PL que aderiram ao adversário de Wellington. Outros gestores da legenda também escolheram o projeto de continuidade representado por Pivetta. Os quatro nomes simbolizam, porém, a dimensão da debandada por comandarem algumas das maiores, mais ricas e politicamente estratégicas cidades do Estado.
A eleição de 2026 poderá entrar para a história como aquela em que o PL alcançou uma força política inédita em Mato Grosso, mas não conseguiu permanecer unido em torno do seu próprio candidato ao Governo.
Wellington possui a candidatura oficial e o número do PL nas urnas. Pivetta, entretanto, conquistou prefeitos, bases municipais e importantes lideranças eleitas pela própria legenda.
No centro dessa ruptura está a aliança com o MDB.
Quatro das principais cidades estão com Pivetta
A perda sofrida por Wellington não envolve lideranças secundárias, políticos sem mandato ou municípios de pouca relevância eleitoral.
Cuiabá possui o maior eleitorado de Mato Grosso e concentra o comando político e administrativo do Estado. Várzea Grande exerce papel decisivo na região metropolitana. Rondonópolis é uma das principais forças econômicas e eleitorais do sul mato-grossense. Primavera do Leste está situada no coração de uma das regiões mais produtivas e influentes do agronegócio.
Os prefeitos dessas quatro cidades foram eleitos pelo PL, mas decidiram apoiar Pivetta.
A adesão de Abilio Brunini, Flávia Moretti, Cláudio Ferreira e Sérgio Machnic representa mais do que quatro manifestações individuais. Revela que uma parcela expressiva do partido de Bolsonaro deixou de enxergar Wellington como o representante natural do projeto político defendido por sua base.
Além deles, outros prefeitos do PL também aderiram a Pivetta, demonstrando que a crise não está restrita a divergências pessoais ou a um pequeno grupo descontente.
Trata-se de um movimento político amplo.
Na prática, Wellington tem a candidatura oficial do partido, mas Pivetta conquistou o apoio de algumas das principais vitrines administrativas da própria legenda.
É uma situação rara na história política de Mato Grosso: o candidato ao Governo perde para o adversário o apoio de prefeitos eleitos por sua própria sigla, inclusive nos maiores e mais estratégicos centros eleitorais.
Pivetta domina 135 dos 142 municípios
O tamanho do isolamento municipal de Wellington se torna ainda mais evidente diante da gigantesca rede de apoio reunida por Pivetta.
Segundo o levantamento político divulgado pela articulação governista, prefeitos de 135 dos 142 municípios de Mato Grosso apoiam sua candidatura.
O número representa aproximadamente 95% das prefeituras do Estado. Apenas sete municípios estariam fora desse arco de alianças.
Se essa força for convertida em mobilização eleitoral, Pivetta terá construído uma das maiores redes municipais já reunidas por um candidato ao Governo na história recente de Mato Grosso.
Uma estrutura dessa dimensão não se resume a fotografias, reuniões ou declarações públicas. Ela representa vice-prefeitos, vereadores, secretários municipais, lideranças comunitárias, produtores rurais, empresários e cabos eleitorais distribuídos praticamente por todo o território mato-grossense.
Wellington possui experiência, mandato e uma trajetória política consolidada. Contudo, enfrenta um adversário cercado por uma força municipal gigantesca — formada, inclusive, por gestores eleitos pelo próprio PL.
A disputa deixa de ser apenas um confronto entre dois candidatos. Passa a representar o choque entre a candidatura partidária formal de Wellington e a capilaridade construída por Pivetta, impulsionada pelo projeto político e administrativo liderado por Mauro Mendes nos últimos anos.
O peso do legado de Mauro Mendes
O apoio de 135 municípios também revela a força política acumulada pelo grupo de Mauro Mendes.
Ao longo dos últimos anos, o governo estadual ampliou sua presença nos municípios por meio de obras, investimentos, parcerias e articulações institucionais. Essa relação produziu uma base municipal que ultrapassa divisões partidárias e aproxima prefeitos de diferentes legendas do projeto de continuidade.
Pivetta surge como herdeiro direto dessa estrutura política e administrativa.
O apoio municipal não está limitado aos partidos que integram formalmente sua coligação. Ele alcança prefeitos do PL e lideranças que, em outras circunstâncias, poderiam estar no palanque de Wellington.
Esse é um dos principais contrastes da eleição.
Enquanto Wellington procura ampliar sua força por meio de uma aliança partidária com o MDB, Pivetta apresenta uma base construída diretamente nos municípios e sustentada pela continuidade do trabalho realizado pelo grupo de Mauro Mendes.
De um lado, uma composição negociada entre partidos.
Do outro, prefeitos que enxergam no atual projeto governista a possibilidade de manter investimentos, obras e parcerias com o Estado.
Wellington ganhou o MDB, mas perdeu a unidade do PL
A presença do MDB na coligação tornou-se um dos principais focos da crise.
Wellington apostou que a união ampliaria sua força, agregaria lideranças e aumentaria a estrutura da candidatura. A estratégia possui uma lógica eleitoral: reunir partidos, recursos, tempo e bases políticas para chegar mais competitivo à disputa.
Mas a conta chegou.
Setores do PL e lideranças identificadas com o bolsonarismo passaram a rejeitar a composição. Para esse grupo, o MDB representa um modelo político distante do discurso construído pela direita ao longo dos últimos anos.
A divergência saiu dos bastidores e passou a orientar publicamente as decisões eleitorais.
Wellington ganhou o MDB, mas perdeu a unidade do PL.
Conquistou uma sigla para sua coligação, mas abriu espaço para o afastamento de prefeitos, lideranças conservadoras e integrantes do próprio partido.
A aliança planejada para fortalecer sua candidatura produziu um efeito inverso dentro da legenda. Enquanto Wellington ampliou sua coligação no papel, Pivetta avançou nas ruas e conquistou os apoios que deveriam estar naturalmente no palanque do PL.
A pergunta tornou-se inevitável: valeu a pena conservar o MDB e entregar ao adversário uma parte expressiva da base política do partido de Bolsonaro?
Pivetta ocupa o território deixado por Wellington
Otaviano Pivetta tornou-se o principal beneficiário da guerra interna.
Ele não precisou convencer todo o PL a abandonar Wellington. Bastou receber o apoio de lideranças que possuem mandato, votos, presença regional e capacidade de mobilização.
Cada manifestação pública de Abilio Brunini, Flávia Moretti, Cláudio Ferreira e Sérgio Machnic fortalece uma mensagem poderosa: o candidato oficial do PL não conseguiu reunir nem mesmo os prefeitos eleitos pela legenda nas principais cidades de Mato Grosso.
A adesão de outros gestores do partido amplia ainda mais o desgaste.
Ao reunir prefeitos de 135 dos 142 municípios, Pivetta demonstra que sua força ultrapassa fronteiras partidárias. Seu projeto alcança praticamente todo o Estado e inclui lideranças que, formalmente, poderiam estar trabalhando pela candidatura de Wellington.
A movimentação também permite que Pivetta dialogue diretamente com o eleitor conservador. Embora seja candidato pelo Republicanos, ele passou a ocupar parte do espaço político que naturalmente deveria pertencer ao representante do partido de Bolsonaro.
Wellington carrega a legenda.
Pivetta reúne lideranças eleitas por ela.
Wellington conservou o MDB.
Pivetta conquistou prefeitos do PL.
Wellington possui a candidatura oficial.
Pivetta domina politicamente 135 municípios.
Medeiros faz campanha distante de Wellington
A divisão também alcançou a candidatura de José Medeiros ao Senado.
Embora Wellington e Medeiros pertençam ao mesmo partido, as duas campanhas não demonstram a integração esperada entre candidatos que deveriam compartilhar o mesmo projeto majoritário.
Medeiros realiza uma campanha praticamente independente, sem a participação efetiva de Wellington. O distanciamento ficou ainda mais evidente no lançamento oficial de sua candidatura ao Senado, um dos momentos mais importantes do calendário eleitoral.
Wellington não compareceu.
Segundo declaração atribuída ao empresário Odílio Balbinotti, primeiro suplente de Medeiros, Wellington não teria sido convidado para o evento. Balbinotti também reafirmou a resistência de seu grupo à participação do MDB na coligação e indicou que a campanha ao Senado vem sendo conduzida separadamente.
A ausência possui enorme peso simbólico.
O candidato do PL ao Senado lançou oficialmente sua campanha sem a presença do candidato do PL ao Governo.
Não se trata apenas de um problema de agenda ou de uma formalidade partidária. Politicamente, o episódio mostra que Wellington e Medeiros seguem por caminhos diferentes dentro da mesma legenda.
De um lado, Wellington tenta conciliar o PL com o MDB.
Do outro, Medeiros e seus aliados procuram preservar uma identidade mais diretamente ligada ao bolsonarismo e resistem à composição construída pelo candidato ao Governo.
O PL apresenta dois candidatos, mas não consegue apresentar um único projeto eleitoral.
Um partido dividido em três palanques
A crise fragmentou o PL de Mato Grosso em pelo menos três frentes.
Na primeira, Wellington mantém sua candidatura ao Governo e insiste na aliança com o MDB.
Na segunda, José Medeiros conduz uma campanha ao Senado separada, sem integração efetiva com o candidato do partido ao Palácio Paiaguás.
Na terceira, prefeitos eleitos pelo próprio PL abandonam o palanque oficial e apoiam Pivetta.
Não é mais uma simples divergência interna. É uma divisão eleitoral completa.