Mata nativa da Floresta Amazônica queimada e derrubada. Terra arrasada. Animais fugindo do fogo – quando não conseguem, morrem. Este é o cenário em várias áreas de diferentes municípios mato-grossenses que estão sendo sistematicamente invadidas e devastadas por grileiros, conforme denúncias dos proprietários das terras. É o meio ambiente sendo vítima da ganância humana.

Felipe Stühler

Área de manejo florestal, em Juruena (MT), devastada por queimadas criminosas.

Em Juruena (930 km de Cuiabá, a noroeste do estado de Mato Grosso), 25.100 hectares da Rohden, empresa familiar de manejo florestal, foram destruídos. A área, localizada às margens da BR-174, está invadida desde o dia 23 de junho deste ano. A família Stühler chegou à cidade nos anos 1980 e iniciou o empreendimento em 1992. Foi o primeiro projeto de manejo florestal liberado pelo IBAMA em Mato Grosso e sempre tem mantido 100% da floresta nativa.

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A primeira invasão deste ano, no entanto, foi em 2 de abril, por um grupo de 150 pessoas liderado pelo vereador Juracy Nascimento Santos (SD), popularmente conhecido como “Neguinho da 13”. O gerente Felipe Stühler explica que em abril, conseguiram retirá-los judicialmente. 15 dias depois, eles retornaram e ameaçaram os 75 funcionários da empresa. As ameaças à natureza, no entanto, concretizaram-se. “No dia 24 de junho, um dia após a última invasão, derrubaram e colocaram fogo em toda floresta. E, assim, eles vêm fazendo até agora. Está tudo acabado”, afirma Felipe.

Felipe Stühler

Residência à beira do Rio Juruena destruída.

Além da natureza, os três imóveis da família (2 localizadas na BR-174 e um à beira do Rio Juruena) foram incendiados.

“Ninguém quer realmente a terra. É uma quadrilha que entra na área, derruba tudo e pretende vender para outra pessoa. Uma pessoa mal informada, que não conhece a situação, pensa que está comprando algo legal”, denuncia Stühler.

O empresário Raphael Nogueira, que tem uma propriedade familiar em Castanheira (787 km de Cuiabá), teve sua área invadida 7 vezes nos últimos 4 anos. Ele confirma a denúncia. “Eles se escondem atrás do argumento da reforma agrária, para invadir e comercializar os lotes. O objetivo não é reforma agrária neste caso”, diz Nogueira.

A área dele em Castanheira é para criação de pecuária de corte. São 2 mil hectares, sendo mil de pastagem e mil de mata nativa. “Os grileiros promovem desmate da área de reserva, destroem patrimônio, soltam o gado pelas estradas vicinais e o manejo fica tumultuado”, explica Raphael.

Juína e Castanheira são apenas alguns dos municípios onde a floresta Amazônica está sendo devastada. No noroeste do Estado diversos lotes estão sofrendo com o mesmo problema. “O dano para o meio ambiente é monstruoso. De certa maneira, até irreversível. A terra está arrasada, muitos animais morrendo. Estamos há 20 anos cuidando dessa área, e aí vêm e fazem isso?”, desabafa Felipe.

Justiça

A juíza de Direito Agrário do Estado, Adriana Sant’Anna Coningham, já concedeu liminar à Rohden para que aconteça a reintegração de posse. “Temos a área regularizada e tudo, mas o problema é fazer a liminar ser cumprida”, explica o gerente da empresa.

A decisão judicial, quando o processo é bem montado, é rápida, porém, o cumprimento da decisão, porque depende do apoio da polícia, do comitê de conflitos, aval da casa civil. Tudo isso demora de 4 a 6 meses, conforme os empresários.

“A área é de reserva legal, fizemos o cadastro ambiental único e o compromisso de manter a área como floresta para sempre. Temos feito de tudo para cumprir esse compromisso. Mas, eles chegam e derrubam madeira para comercializar. Fazemos as denúncias, mas nem sempre nos atendem imediatamente. Em 30 dias promovem um dano considerável. Órgãos têm dificuldade de identificar quem cometeu. Nossos funcionários pedem para sair, pois não agüentam o ambiente de violência, as ameaças. A programação de trabalho é prejudicada, ficamos obrigados a não cumprir o planejamento como empresa. Entre danos, advogados, segurança, transtorno na rotina, já gastamos mais de R$800 mil”, explica Raphael.

Reprodução

Vereador Juracy Nascimento Santos (SD) está preso desde agosto.

O vereador Juracy está preso desde 19 de agosto. É candidato à reeleição em Juruena e declarou à justiça eleitoral R$383.000 de patrimônio, incluindo um terreno na Gleba 13 de Maio, onde encabeçou uma invasão. A Polícia Judiciária Civil expediu, na denominada Operação Rhoden, 2 mandados de prisão e 10 de busca e apreensão. 9 pessoas estão foragidas.

“Neste dia, pararam em frente à área para se reunir e abordar na madrugada, o povo achou que era reintegração, começou um corre-corre, foram no rancho em frente ao rio. Foi quando atearam fogo nos nossos 3 imóveis”, relata Felipe.

Desde 1998 a família Stühler tem conhecimento de ações como essas na região, sempre encabeçadas pelo vereador.

“A Prefeitura de Juruena ao invés de proibir, coloca ônibus para buscar as crianças lá dentro. Não pode, né? Está avalizando uma coisa errada. A culpa não é da prefeitura, quem colocou a criança lá foi o pai da criança. Tudo isso acontece, infelizmente, em busca de votos e de dinheiro fácil” dispara Felipe.

Ele ainda afirma que a população já pediu a cassação do mandato do parlamentar, mas os colegas de casa legislativa votaram pela não-cassação.

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