Após passar anos sofrendo com tremores incontroláveis e fortes dores causadas pelo mal de Parkinson, a dona de casa Jucineide Dias de Morais, de 48 anos, comemora o sucesso da cirurgia que pôs fim ao seu sofrimento, realizada há oito dias pelo Sistema Único de Saúde (SUS), no Hospital São Benedito, em Cuiabá. Ela foi a primeira paciente a passar pelo procedimento no estado pelo SUS.

Moradora de Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá, a dona de casa apenas recebeu um diagnóstico exato da doença no início do mês, apesar da doença ter começado a se manifestar há 10 anos. Ela, que ao longo do último ano, deixou de andar, beber ou caminhar sozinha, hoje recupera aos poucos a independência. “Já consigo beber, comer, me lavar, tudo sozinha. E já estou caminhando, mas ainda com ajuda e dando poucos passos, por causa dos pontos”, contou.

Quem vê a dona de casa sentada no quintal da residência onde mora, no bairro 24 de Dezembro, com um lenço enrolado na cabeça e conversando com a família, não imagina que, quatro meses atrás, ela nem mesmo conseguia se mexer na cama sem ajuda.

“Para mim, vê-la depois da cirurgia sem tremer nada, sem derrubar o copo de água que eu dei, foi como testemunhar um milagre. Eu quase não acreditei. Ela sentia tantas dores que, do jeito que a gente a colocava na cama, tínhamos que deixar, porque se você tentasse mudá-la de posição, ela sentia muita dor”, relatou Gilmar Lopes de Morais, de 49 anos, marido de dona Jucineide.

Jackeline Dias, filha da dona Jucineide, se emociona ao lembrar o sofrimento da mãe (Foto: Desireé Galvão/ G1)Jackeline Dias, filha da dona Jucineide, se
emociona ao lembrar o sofrimento da mãe
(Foto: Desireé Galvão/ G1)

Incerteza
Os últimos 10 anos na vida da dona de casa foram marcados por lágrimas de tristeza e incerteza. Durante todo esse período, ela chegou a tomar 10 remédios diferentes por dia e a gastar de R$ 800 a mais de R$ 1 mil nas farmácias, sem ver melhoras.

A família relembra que dona Jucineide chegou a ser diagnosticada com problemas nos nervos, aneurisma, síndrome do pânico e mal de Alzheimer ao longo da última década, sem que os exames, porém apontassem nada. E a cada diagnóstico, um novo remédio era incluído na receita.

“Ela passou por biópsias, exames de sangue, tomografia e até eletrochoque, mas os resultados davam todos normais. Passamos por vários hospitais, por vários médicos, fomos até mesmo para São Paulo (SP) procurar ajuda, e nada. A cada lugar que a gente ia, era um ‘não posso ajudar’ que recebíamos”, afirmou Jackeline Leite Morais, de 27 anos, uma das três filhas da dona de casa.

O diagnóstico da doença, segundo a família, foi feito pelo neurocirurgião Jhony Soares Ramos, no início desse mês, após ser indicado por um médico consultado pela família no Hospital Geral Universitário (HGU). “Consultei com ele na quinta-feira (3) e ele me diagnosticou [com Parkinson] e perguntou se eu aceitaria passar por uma cirurgia, que ele iria ver como poderia fazer. No sábado (5) ele ligou e disse que eu já podia me internar na segunda-feira (7). Na terça-feira (8), eu operei”, disse Jucineide.

Quando vi os tremores acabando, senti um alívio muito grande”
Jucineide Morais

A dona de casa precisou raspar os cabelos para passar pelo procedimento cirúrgico, que foi realizado com a paciente consciente. Jucineide entrou na sala de cirurgia às 13h e saiu apenas às 22h, direto para o quarto. “Quando vi os tremores acabando, senti um alívio muito grande”, relembrou.

Desespero
Jackeline ressaltou o sofrimento da mãe e os momentos de desesperança, que logo eram seguidos pelas injeções de ânimo e fé da família. “Foram 10 anos de sofrimento, 10 anos com a gente chorando com ela, sem ter o que fazer. Vi minha mãe não querer comer ou beber, passando por momentos de constrangimento e humilhação. Em alguns dias, ela chorava bastante e pedia a Deus para acabar com essas dores. Para tudo, ela dependia dos outros”, afirmou.

Segundo a filha, um dos momentos de mais desespero da família ocorreu meses atrás, quando um médico consultado pela família citou a possibilidade de uma cirurgia para dar fim às dores e aos tremores sofridos por dona Jucineide, mas afirmou que tratava-se de um procedimento muito caro, foram do alcance financeiro da paciente.

“Ele disse que, mesmo se vendêssemos tudo o que nós tínhamos, não conseguiríamos pagar a cirurgia. Nesse dia, ao chegarmos em casa, a minha mãe chorou muito e ficamos sem chão. Ela dizia que achava que Deus tinha se esquecido dela”, afirmou.

Jucineide já voltou a caminhar, mas aos poucos, para não prejudicar a recuperação (Foto: Desireé Galvão/ G1)Jucineide já voltou a caminhar, mas aos poucos, para não prejudicar a recuperação (Foto: Desireé Galvão/ G1)

A família chegou a procurar a Defensoria Pública para pedir, na Justiça, que o estado garantisse a realização da cirurgia pela rede pública. No entanto, até hoje, nenhuma decisão sobre o caso foi dada. “Pedimos pela cirurgia que foi apontada como uma forma de melhorar a vida que ela levava, mas até hoje não saiu um resultado. Ainda bem que, agora, não precisamos mais”, disse a filha.

Esperança
Hoje, a dona de casa disse que apenas derrama lágrimas de alegria. Ao se ver reconquistando a independência aos poucos, Jucineide disse se focar no futuro que a espera e que nem mesmo teme as cirurgias que deverá fazer de quatro em quatro anos para a troca de baterias do equipamento que foi instalado em seu cérebro, semelhante a um marca-passo cardíaco, responsável por modulas a atividade elétrica das estruturas profundas do cérebro.

Para Jucineide, voltar a cuidar da sua casa sozinha e à rotina que mantinha antes da doença aparecer é o que ela mais espera, após passar pelo período de recuperação. Tristeza e dores, segundo ela, não cabem mais na sua vida. “Hoje, só derramo lágrimas de alegria. O aparecimento desse médico na minha vida, a realização dessa cirurgia, é a prova de que não podemos perder a fé”, disse.

Jucineide comemora o resultado da cirurgia e o retorno da independência (Foto: Desireé Galvão/ G1)Jucineide comemora o resultado da cirurgia e o retorno da independência (Foto: Desireé Galvão/ G1)

fonte g1 mt

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