Por volta das 10h da manhã, Karolayne Pereira Lima, 23, e os dois filhos, João Miguel de 8 anos e Gustavo de 4 anos, ainda não havia comido nada. Sem pão ou leite, os únicos alimentos na casa eram algumas salsichas e arroz, alimentos que ela ganhou e garantiram o almoço na última terça-feira (6).
Morando há 5 meses em Cuiabá, ela, o companheiro e as crianças vivem em uma peça no bairro São José, na região do Residencial Coxipó, em Cuiabá, que foi alugada com parte do dinheiro recebido do Auxílio Brasil, R$ 600, que é a única fonte de renda da família nesse momento. Apesar de estarem em baixo de um teto, os 4 dormem em dois colchões de solteiro jogados no chão.
Sem geladeira, o que ganham, e quando ganham, é armazenado apenas em caixas de papelão, até mesmo aquilo que precisa ficar refrigerado. A salsicha, por exemplo, estava guardada em uma das caixas em cima de um armário. Coloco no alto porque se não as crianças comem tudo de uma vez.
Apesar de ter um fogão, que também ganhou, ela não tem gás e cozinha com a ajuda de uma panela elétrica que uma vizinha doou. Para muitos, o que pode parecer coisa simples de se conquistar, para ela é motivo de sonho. Minha vontade era comprar um botijão para fazer comida, era de ter uma água gelada para beber, uma cama para dormir. Era poder dar aos meus filhos uma alimentação melhor.
Karolayne conta que ela e o companheiro se conheceram há alguns meses em Cuiabá, após ela chegar de Sinop. Como os dois estavam passando por necessidades e precisando de ajuda, decidiram se unir na tentativa de construir uma vida melhor. Agora, enquanto ela paga pela moradia, ele faz bicos para ajudar com a conta de luz, de água e tentar garantir a alimentação da casa. Mas mesmo assim a família ainda passa por muitas necessidades e vive basicamente de doações de vizinhos.
Drama
Não bastasse o drama vivido diariamente para garantir a sobrevivência dos filhos, ela ainda precisa ser forte, lidar com o psicológico abalado por um trauma e ainda correr atrás de um tratamento para o filho mais velho, João Miguel, que é autista e fruto de um estupro cometido pelo próprio irmão de Karolayne. A jovem conta que deu a luz ao filho quando tinha 14 anos e que a gravidez só foi descoberta aos 6 meses de gestação, depois de passar mal.
Os abusos eram frequentes e começaram aos 9 anos. Eu tinha medo porque ele ameaçava me matar e, então, ninguém sabia. Minha mãe morreu sem saber dessa verdade, conta com lágrimas nos olhos.
Os traumas a perseguem, inclusive reconhece que precisa de ajuda e que por algum tempo chegou a se cortar para tentar amenizar a dor emocional e as dificuldades da vida. Ela conta que não tem condições nem para pagar o vale transporte para correr atrás da Farmácia de Alto Custo para o remédio que João Miguel precisa tomar, o risperidona. Ele precisa de ajuda e eu também, mas é difícil, diz mostrando os braços com cicatrizes.
Além disso, ela conta que João Miguel precisa também de uma cirurgia de Criptorquidia, que foi descoberta há poucos anos. Nesse caso, a operação é para corrigir um problema em um dos testículos da criança que não desceu para o saco escrotal. O testículo, geralmente, se move para a posição correta por conta própria dentro de alguns meses após o nascimento. Se isso não acontecer, ele pode ser realocado cirurgicamente. Eu ainda preciso correr atrás disso também, ainda não consegui ver nada para essa cirurgia.
Natal
Para esse Natal, seu maior desejo é poder dar às crianças uma mesa farta, garantir as refeições diárias, poder garantir também o gás de cozinha mensal e ganhar a sonhada geladeira repleta de alimentos além, é claro, de poder oferecer um tratamento de saúde digno para o filho. Se eu pudesse pedir algo agora com certeza seriam essas coisas.
As crianças sonham também com frutas, bolachas, biscoitos, leite e brinquedos. Eles sempre pedem, mas eu explico que não tenho como dar, não tenho dinheiro. Daí eles se distraem e eu vou chorar. Dói ver o filho pedir e não ter como dar.
No cômodo, a família não tem quase nada. Além da cama quebrada, faltam ventilador, água filtrada, televisão, sofá e muitos outros móveis. Apesar das dificuldades, ela faz questão de reconhecer que Deus tem enviado pessoas boas para ajudar. A minha vizinha, sempre que pode, pega eles e leva para lá. Dá comida, eles assistem TV lá, porque aqui não tem.
Serviço
Para ajudar a família de Karolayne o telefone para contato é (65) 99976-2871.
