Faltam três minutos para a zero hora de uma noite nublada em um sábado de novembro quando o Uber para em frente a uma casa de arquitetura estranha, três andares, semelhante a um chalé alemão de telhado assimétrico, como se fora terminado só de um lado. Sobre o muro alto – pintado com as mesmas cores da casa, salmão com detalhes em verde limão -, uma pequena sacada. Nada ali dá qualquer evidência do que acontece lá dentro entre as 22h e as 03h da manhã, exceto, talvez, pelo funk carioca que se ouve, até então, em volume ainda discreto, ao menos para quem está do lado de fora.

Pago o Uber, desço e entro. Um segurança de terno mas sem gravata dá boa noite e avisa: “tem que acertar aqui, antes de entrar, ok?”. Tiro três notas de R$ 100 e entrego a ele, que sorri, me devolve uma comanda e informa: “o senhor pode ficar à vontade. Lá dentro, ela te explica tudo”. Estou, enfim, em uma das três mais conhecidas casas de swing de Cuiabá.

Sem me identificar em momento algum como jornalista (mas a respeitar todas as regras, especialmente as de preservar nomes e não fazer imagens do local), passo por um breve corredor, visualizo seis jogos de mesas e cadeiras espalhados por um quintal em cujo fim há uma edícula com quatro portas e uma churrasqueira. À direita, uma piscina com outro jogo de mesa (mas só duas cadeiras) dentro, além de uma bola colorida. Volto o olhar para mais perto, avisto um casal (o mais jovem visto até ali), ambos estão de jeans, tênis e camiseta. Ele usa pólo branca, é magro. Ela é mais cheinha e está de azul quase calcinha, a alça do sutiã preto aparecendo.

Alguns metros à frente, dois outros casais, mais velhos, conversam tranquilamente sobre assuntos diversos (as mulheres usam vestidos decotados e justos; os homens, camisas e calças sociais). À minha direita, cerca de quatro metros, uma mulher, magra, por volta de 1,65m de altura, traja um vestido decotado e justo como o das que conversam, vermelho como também o são os sapatos. Esta arregala os olhos ao me ver, eu interpreto de maneira errada o sinal. Dou boa noite e pergunto se é a hostess da casa. Ensaia um sorriso surpreso e responde de pronto: “oi?”, mas eu percebo que em verdade ela não entendeu o termo. Repito, agora estendendo-lhe a mão: “você é a recepcionista?”. A reação é um sorriso e um apontar para a casa. “Ela está lá dentro, no bar”. Me desculpo. Ela mordisca o canudo e mantém o sorriso. “Não foi nada, pode ficar à vontade”.

Tenso, vou até o bar. Do outro lado do balcão, uma negra bonita, vestindo um short jeans rasgado curtíssimo, responde corporeamente ao som alto do funk carioca. Cada batida, um movimento sensual de quadril. As letras versam sobre “pular na p*****” e “tremer o bumbum”. O lugar é ainda mais escuro do que a parte de fora, onde já era impossível, por exemplo, perceber detalhes como a cor dos olhos das pessoas.

Ao me ver, ela sorri, diz que sou bem vindo e pergunta o que vou beber. Peço um drink e me viro para a sala/pista de dança enquanto ela o prepara. Vejo então três casais. Dois estão sentados em um sofá que ocupa a lateral esquerda do salão em quase todo o ângulo daquela extensão em L. Dois se beijam timidamente. Um outro está à minha esquerda, naquelas mesinhas redondas de banquetas altas. O homem está encostado à parede, sentado, a beber enquanto sua companheira, de vinte e poucos anos, cerca de 1,75m e por volta dos 95 quilos, rebola com gosto.

Quando me vê, o homem desencosta da parede e a segura pelo quadril. Atrás dela, um homem magro, sozinho, de camiseta branca, aparece com uma lata de cerveja na mão, sentado entre os dois casais. À direita, uma barra de pole dance e uma das muitas portas que veria dali em diante. Pego minha bebida e, como nada muito, digamos, indecente acontece por ali, resolvo voltar à parte externa da casa.

Lá, tudo continua na mesma, com a diferença de que agora a mulher de vermelho está acompanhada por um homem alto, magro, por volta dos 55 anos. Para acompanhar os olhos dela, ele também me olha. Meneio a cabeça, penso em um dos axiomas de Schopenhauer – “amor é apenas instinto de sobrevivência da espécie” – e decido fuçar a edícula. Para minha decepção, o quarto com a placa “exclusivo para ménage” está vazio. Ao lado, um banheiro limpo. Um relâmpago corta o céu e um esboço de chuva fina começa a cair. Saio, vou até a outra porta, vejo uma cama. Também vazia. Uso o banheiro e volto pro pátio. Ninguém ocupa a piscina. Os casais conversadores riem alto, as mulheres trocam confidências acerca do ciúme que os filhos adolescentes sentem das mães. Uma entrega o filho de 17 anos que xingara um homem na rua porque este “não tirava os olhos da bunda” dela. O marido ri e conta ter gargalhado porque o menino relatou a ele a mesma história.

Meu drink termina, já estou ali há meia hora e sem muito da pauta. Decido entrar e checar a parte de cima da casa. Abro a porta e a recepcionista me diz: “o pessoal já subiu, tá?”. Faço o mesmo. Um lance de escada depois, dou de cara com uma porta, tento abrir. Trancada. Percebo um corredor, outra porta com uma placa onde se lê “exclusivo para trocas de casais”. Também trancada. Olho para a porta em frente e vejo uma mulher por volta dos 30 anos que me olha meio sem jeito. Volto ao início do corredor e subo mais um lance de escada. Lá de cima, enquanto olho outras duas salas vazias (uma das quais lê-se à porta a placa “massagem erótica”), ouço o proprietário bater com força nas portas e falar com voz firme: “pessoal, esta porta não pode ficar trancada”.

Desço e na penúltima sala à esquerda a menina que me olhava sem jeito está sentada na cama, fazendo sexo oral em um homem que não consigo ver devido ao ângulo e à distância, abro a porta agora destrancada à minha frente e vejo dois casais próximos um ao outro. Um homem completamente nu recebe um boquete de uma mulher jovem, bonita, sentada em um sofá. Ao lado deles, uma daquelas macas eróticas de motel acolhe as pernas completamente arreganhadas de outra mulher, no meio, outro homem, com a calça abaixada, parece tentar penetrá-la.

Observo tudo por alguns minutos, o que recebia sexo oral agora coloca a companheira de quatro e a penetra. Ela geme alto e profundamente. Tenho a nítida impressão de estar assistindo um filme pornô sendo orquestrado ao vivo sem cortes ou direção. Os barulhos típicos de sexo (corpos se batendo, fluídos escorrendo e produzindo pequenos outros sons molhados) são claramente audíveis na moldura produzida pelo sertanejo que deu lugar ao funk na trilha sonora.

Vou até a outra sala e lá outra coisa me remete ao cinema, pois o que eu vejo é por demais semelhante a algumas cenas de A História de O, mas não só, há também muito de Hellraiser II logo que vejo pelo menos três pares de homens e mulheres enrolados em cima da cama, outros dois pares estão em pé, à volta. Não dá pra saber onde começam ou terminam corpos, línguas, seios, mãos e outras partes de corpos. Todos se confundem, assim como os sons emitidos por eles.

É o suficiente pra mim. Decido voltar ao bar.

Já na parte de baixo, os casais de homens mais ciumentos também estão de volta (eles só observaram tudo, sem de nada tomar parte). Suas mulheres estão ainda mais animadas e agora dançam levantando os vestidos, fazem poses sensuais, exibem bundas, virilhas e calcinhas. A de vermelho não larga mais o pole dance, o marido do lado. Ela me observa, agacha, tira a lingerie minúscula, preta e transparente e, sem eu esperar, a joga em mim. A peça cai à frente dos meus pés. O marido ri alto. Ela continua dançando alguns segundos e pede ao marido permissão para vir até mim buscar sua roupa de baixo. O homem magro, alto e quase ancião permite. Ela chega sorrindo e diz ter perdido “minha calcinha, você a viu?”.

Eu tomo um gole, abaixo, pego o pequeno pedaço de renda e a olho mais de perto, com o vestido preso no meio das pernas. Está levemente suada. Imediatamente comparo mentalmente aquele corpo pequeno e magro à opulência da mulher com quem habitualmente me relaciono. É como se opusesse uma stallion feroz e um camundongo assustado. A dançarina de vermelho me parece, então, ainda mais frágil e essa imagem faz desaparecer qualquer traço de excitação. Devolvo a calcinha e sorrio. Espero alguns minutos e percebo que a bunda da menina gorda ali perto é incrivelmente firme e bonita. Me levanto, peço a conta, pago e saio.

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