A delegada da Polícia Judiciária Civil, Ana Cristina Feldner, suspeita que o secretário de Segurança Pública (Sesp-MT), Gustavo Garcia, também seja um membro da organização criminosa que estaria por trás das interceptações telefônicas ilegais no Estado, e que tentou obstruir a Justiça na apuração dos fatos. A informação está presente num documento enviado ao desembargador do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJ-MT), Orlando Perri, então relator de uma ação que apurava a atuação do bando.

Ana Cristina Feldner, que presidiu o inquérito policial que investigava a atuação da organização criminosa, disse que Gustavo Garcia não mantinha apenas um vínculo de “amizade e subordinação” ao seu antecessor na pasta, Rogers Jarbas, preso no dia 27 de setembro de 2017, acusado de obstrução à Justiça durante a deflagração da “Operação Esdras”. “A participação do delegado Gustavo Garcia tem se revelado diferente, iniciando as suspeitas de que também integra a organização criminosa, e não somente mantém vínculo de amizade e subordinação”, disse a delegada.

Um dos fatos que motivaram as suspeitas de Ana Cristina Feldner foi o episódio do depoimento da delegada Alana Cardoso – coordenadora das operações “Fortis” e “Querubim”, que grampearam uma amante do ex-chefe da Casa Civil, Paulo Taques. Após receber um ofício da juíza Selma Arruda no dia 26 de maio de 2017, pedindo informações sobre as operações, o governador Pedro Taques (PSDB) enviou outro ofício ao então chefe da Sesp-MT, Rogers Jarbas, determinando “a adoção de providências de estilo”.

Jarbas, então, convocou a delegada para prestar “esclarecimentos”. A medida foi vista por Orlando Perri como uma forma de “intimidação” uma vez que ele não era autoridade competente para inquirição de informações de um inquérito sigiloso – e sim uma outra autoridade policial, como um delegado da PJC no âmbito de outra investigação.

Nos dias que antecederam o depoimento, a delegada afirmou ter recebido “telefonemas” de Gustavo Garcia, na época, secretário-adjunto de Inteligência da Sesp-MT, que nos contatos disse que queria “reatar a amizade” com Alana Cardoso. “Hoje analisando os fatos friamente percebo que o referido telefonema do Gustavo foi fundamental e imprescindível para que eu fosse até a secretaria de Segurança Pública de forma tão desarmada e vulnerável. Estes telefonemas do Gustavo ocorreram quatro ou três dias antes de minha convocação e oitiva realizada pelo secretário Rogers Jarbas”, disse Alana em depoimento à PJC, acusando Gustavo Garcia de ter utilizado uma técnica aprendida num “curso de inteligência” denominada recrutamento.  “Gustavo tem amplo conhecimento na área de inteligência, tendo realizado inclusive a Escola Superior de Guerra, um curso ministrado no Estado do Rio de Janeiro, com duração aproximada de quatro meses. Dentro da inteligência policial Gustavo utilizou a técnica aprendida em curso de inteligência, quando realizou os telefonemas pré-ordenados e em dias consecutivos. O nome dessa ferramenta de inteligência utilizada comigo chama-se recrutamento”, disse Alana.

Alana também disse a delegada Ana Cristina Feldner que durante sua oitiva ao ex-secretário Rogers Jarbas, Gustavo Garcia, que acompanhou o procedimento, chegou a tremer as mãos, pedindo que a depoente falasse baixo pois “as paredes tem ouvidos”. Ela denuncia uma suposta “manobra” dos dois secretários de Estado. “Ela fala que recebeu telefonemas do Gustavo Garcia na semana em que foi convocada a ir à Sesp prestar esclarecimentos (precedentes a esta convocação), deixando claro que havia uma manobra dos dois secretários de Estado para cooptá-la para o que aconteceu na sede daquela secretaria.Esse fato reforça a ação de recrutamento feita pelo Gustavo Garcia em desfavor de Alana Derlene”, disse Ana Cristina Feldner no documento enviado a Orlando Perri.

OUTRA SUSPEITA E CARGO NO DETRAN

Além de Gustavo Garcia, a delegada também suspeita que uma policial, que foi transferida por Rogers Jarbas, também teria atuado em favor da organização criminosa para repassar informações ao próprio Jarbas, uma vez que o ex-secretário da Sesp-MT deslocou a agente para atuar na Gerência de Combate ao Crime Organizado (GCCO) – órgão onde eram realizadas as oitivas das testemunhas da investigação sobre as interceptações telefônicas ilegais. “Informamos que as pessoas citadas pelo suspeito Rogers Jarbas como testemunhas não foram oitivadas por terem tido participação direta no embaraço das investigações, levantando-se suspeitas preliminares acerca dos mesmos também integrarem a organização criminosa, vez que o Gustavo Garcia tentou recrutar a Alana Derlene, tomou suas declarações. Enquanto Hozan, seu subordinado, assinou diretamente o ofício encaminhando uma policial para as dependências da GCCO, coincidentemente enquanto esta subscritora exercia suas funções naquela unidade policial”, disse a delegada.

Ana Cristina Feldner disse ainda que Gustavo Garcia é “homem de confiança” de Jarbas e que ambos “mantém grande laço de amizade”. O ex-secretário da Sesp-MT ocupava o cargo de presidente do Departamento Estadual de Trânsito de Mato Grosso (Detran-MT), e, como chefe do órgão, nomeou Talita Peske Rodrigues, esposa de Garcia, como “diretora de veículos”. “Tendo Rogers Jarbas, enquanto presidente do Detran-MT, nomeado a esposa do Dr. Gustavo Garcia, Talita Peske Rodrigues, para ser diretora de veículos no Detran”.

Os próximos passos das investigações deverão ser determinados pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), uma vez que o ninistro Mauro Campbell Marques avocou os inquéritos que apurava o esquema no dia 11 de outubro de 2017.

 

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