Na Praça Ipiranga, em Cuiabá, a grávida Ana Lúcia Petista, 39 anos, dobra as roupas que recebeu como doação e pede para o enteado, de 14 anos, arrumar as coisas dentro da “casa” onde eles moram, o histórico coreto daquela praça. Às voluntárias, que entravam pedindo licença para a dona do lugar, Ana Lúcia questiona se há roupinhas de bebê disponíveis para doação.

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Ana Lúcia foi apenas uma entre dezenas de moradores em situação de rua que foram atendidos pelo projeto ‘Entrega Por Cuiabá’, que realizou a sua primeira ação na cidade na última sexta-feira (1º). Para algumas meninas com quem conversava, Ana Lúcia disse que não sabia em qual estágio da gravidez estava, mas que acreditava que tudo estava ocorrendo bem.

A moradora de rua contou que está casada há um ano e dois meses com Marcos Cézar**, 41 anos, que conheceu ali mesmo, no coreto. Ele e o filho vendem frutas durante o dia, na região central de Cuiabá. A família, apesar de não ter uma residência física, demonstra muito orgulho em não fazer uso de drogas ou trabalhar em atividades ilícitas.

Cerca de 80 pessoas participaram do projeto Entrega por Cuiabá (Foto: Desireé Galvão/ G1)Cerca de 80 pessoas participaram do projeto Entrega por Cuiabá (Foto: Desireé Galvão/ G1)

Entrega por Cuiabá
Em Cuiabá, o projeto teve início por ideia do professor de medicina da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Flávio Silva Tampeline, que participou do projeto ‘Entrega por São Paulo’, iniciado há três anos, quando ainda morava na capital paulista. A partir de agora, na primeira sexta-feira de cada mês, tanto a gestante Ana Lúcia quanto os demais moradores de rua beneficiados receberão a visita dos voluntários, que levam kits de higiene, entre outras doações.

“Nós entregamos as doações e ajudamos essas pessoas em situação de rua. Mas a história delas, o contato, também enriquece muito a vida dos voluntários”, disse Flávio.

Na noite em que a ação foi realizada, cerca de 80 pessoas, entre estudantes, professores, funcionários da Secretaria Municipal de Saúde e jovens voluntários se reuniram para organizar os kits de doação com roupas femininas e masculinas, além de calçados, no estacionamento do Restaurante Universitário da UFMT.

Comboio com 24 carros percorreu ruas de Cuiabá, em busca de moradores de rua (Foto: Desireé Galvão/ G1)Comboio com 24 carros percorreu ruas de
Cuiabá, em busca de moradores de rua
(Foto: Desireé Galvão/ G1)

Os voluntários partiram em comboio para os seis pontos escolhidos para visita na capital às 21h45. O primeiro local de parada foi a esquina das avenidas Fernando Corrêa e Edgar Vieira, mo Bairro Boa Esperança, onde mora Osmar**.

Assim como diversos moradores em situação de rua que foram visitados, Osmar não quis revelar seu verdadeiro nome e disse não se lembrar do sobrenome. O morador de rua reagiu de forma tímida a tanta gente lhe oferecendo atenção, falou pouco e não quis escolher as peças de roupa que iria receber. Ele dizia que aquilo que os voluntários quisessem oferecer, ele aceitaria de coração.

A hesitação de Osmar em aceitar as doações não foi um fato isolado durante a noite. Na Praça do Porto, em Cuiabá, local onde moradores em situação de rua costumam fazer uso de drogas, um homem de meia idade devolveu um cobertor, minutos depois de tê-lo pegado, alegando que já tinha um cobertor e que, se ficasse com outro, provavelmente iria trocar por drogas, atitude que, segundo ele, seria injusta com quem precisa.

Um artista na rua
Sérgio Revoluções é baiano, atende apenas pelo nome artístico e não quis revelar a idade. Ele contou à reportagem do G1 que há cinco anos mora na Praça da República, mas que, antes disso, era professor de música na capital. Em uma busca rápida, o nome do percursionista é encontrado em fichas técnicas de diversos músicos de relevância da região Centro-Oeste. Hoje, ele é usuário de pasta base de cocaína.

O artista em situação de rua, Sérgio Revoluções, e o idealizador do projeto, Flávio Silva (Foto: Desireé Galvão/ G1)O artista em situação de rua, Sérgio Revoluções, e o idealizador do projeto, Flávio Silva (Foto: Desireé Galvão/ G1)

Durante toda a conversa, Sérgio fingia estar no camarim de um show, dando entrevistas à imprensa e apenas permitiu ser fotografado após reconhecer a filha de um amigo músico, entre os voluntários. O artista também fez questão de mostrar algumas das composições da carreira dele.

“Sou um artista. Quem sabe assim, meus amigos de antes comecem a me cumprimentar de novo ao me ver nas ruas, ao invés de achar que quero roubá-los ou pedir dinheiro”, desabafou.

Ele relatou que, por ser usuário de drogas, se desentendeu com a esposa. Como resultado da briga do casal, acabou sendo preso por oito meses. Até hoje, segundo ele, não pode chegar perto das três filhas, devido a uma medida protetiva. Sérgio disse que já tentou se livrar do vício e ficou três meses “limpo”, mas teve uma recaída e nunca mais tentou a reabilitação.

João Paulo Santos Brito, que acabou nas ruas após não encontrar emprego (Foto: Desireé Galvão/ G1)João Paulo Santos Brito, que acabou nas ruas após não encontrar emprego (Foto: Desireé Galvão/ G1)

‘Sonho perdido’
Na Praça do Porto, em Cuiabá, João Paulo Santos Brito, 47 anos, escolheu um cobertor quente, um par de tênis e outro de chinelos, pediu um sanduíche extra, além do oferecido, e começou a cantar e dançar. Goiano, ele se mudou para a capital de Mato Grosso há pouco mais de um ano, com um contrato de trabalho na construção civil. Como o contrato não foi renovado, ele relatou que entrou em depressão e se se tornou viciado em bebida alcoólica.

Até receber as doações, ele só tinha a roupa do corpo, e momentos antes da chegada do comboio, disse que estava com muito frio. Com a carteira de trabalho no bolso, pronta para provar a versão da história da vida dele, João Paulo relatou que, morando nas ruas, não consegue mais um emprego.

“Procurei emprego incansavelmente, mas ninguém pode me ajudar. Sou grato às doações e a atenção dessas pessoas [voluntários], mas eu só quero trabalhar”, disse o morador de rua.

Cerca de 100 kits foram montados para serem entregues aos moradores de rua (Foto: Desireé Galvão/ G1)Cerca de 100 kits foram montados para
serem entregues aos moradores de rua
(Foto: Desireé Galvão/ G1)

O projeto
O projeto Entrega por Cuiabá não tem fins lucrativos ou ligações com instituições religiosas ou partidos políticos. De acordo com Gabriel Albuquerque, estudante de medicina e um dos coordenadores do projeto, no primeiro dia da ação, 24 carros foram disponibilizados pelos voluntários para carregarem os kits e mantimentos que seriam entregues aos moradores de rua da capital.

Gabriel explicou que a ação recebeu apoio de diversas universidades de Cuiabá e de alguns cursos da UFMT, como medicina, enfermagem e comunicação social, que optaram por substituir o trote tradicional por gincanas de arrecadações das doações. A campanha fez sucesso e a quantidade de materiais recolhidos foi o suficiente para as ações do mês de julho e agosto.

O projeto Entrega por Cuiabá também oferece atendimentos médicos prestados aos moradores de rua, em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde, que tem o programa Consultório na Rua. A próxima ação já está programada para o dia 5 de agosto. Os interessados em se voluntariar ou fazer doações devem procurar a página do projeto, em uma rede social.

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